Leva eu com você

A visita àquele lar de idosos, progressistamente inoculado como ILP – Instituição de Longa Permanência, tinha o relógio contra a minha presença.
Tarde de 31 graus pedia sorvete. Ouvi a esposa para decidir excluir uma sobremesa láctea, com sabor de chocolate, de marca famosa. Que é boa, é boa!
Todos se lambuzaram no gelado colorido e saboroso. Fiquei com vontade de filar uma tantada pra mim. Resisti. Como criança, magoei.
Com dia mais curtos, o descarado do inverno que vai miar loguinho, em 22 de setembro, perto da décima hora, arrasta a coberta da noite sobre a cabeça do dia no maior atrevimento. Encurta suas luzes.
Estando na instituição de acolhimento de pessoas de idade e acometidos de enfermidades neurológicas e mentais, que as reduzem às cadeiras de rodas, a ficarem junto às mesas de refeições e de multiutilidades, tirando algumas que se movimentam apoiadas em andadores, as que não disse ficam mesmo é acamadas. E tomem úlceras de pressão e por terem que se deitar de costas!
Fossem poucos os perrengues e dores das escaras, a imunidade dos internos desce aos pés, despenca. A imunidade deles apanha mais que vaca na horta. Quase indefesos. É a brecha para as dores nos nervos (dói pra cacete! – perdão), formigamentos, agulhadas, adormecimentos, ardumes, coceira em partes do corpo; dores de cabeça; mal-estar. Advinha se a febre faltaria? Jamééé! Essa diaba tem nome e sobrenome: Herpes-Zóster.
Eu, que mal domino o portuga, tenho visto as proezas indesejáveis do Alzheimer pegando pelas mãos daqueles meus novos amigos de mais de ano e que, sem os seus pais desconfiarem, vocês não vão acreditar: leva-os à sua infância em frações de segundos, reavivando suas memórias e lembranças doces – e, de quando em vez, amargas e de traumas – de crianças e adolescentes que eram felizes e sabiam; ou renegavam. Quantos abusos a hipnose do miserável alemão reduz a termo em delação atemporal impossível de ser premiada. O escrivão de polícia, cadê? O técnico de áudio e de vídeo, também está de folga, só porque é sábado? O delegado do plantão – bom, ele geralmente tem mais o que fazer. Por sua patente civil, tem que evitar a fadiga. Toma declarações e interrogatórios por exceção, na hora da extrema unção e dependendo da cara do freguês que reservou passagem de ida contra a vontade.
Uma delas que, para amorosamente zoar, eu digo que é minha comadre, que disputa qual de nós é mais branco que leite, torra a minha paciência apresentando sua filha preta, na borracha macia de uma boneca que cuida como gente. Amo. É amor, na língua dos anjos, que os visitantes, certos familiares e xeretas demonstram não compreender. Conjugar o substantivo amor como verbo não é pra qualquer um, não! Dou razão.
Meu horário venceu. Bem. Estaria para vencer.
Tendo orado no escuro do quarto daquela a quem amo como irmã, forte no poder da intercessão perante Deus, marquei o rumo do corredor, à esquerda, quebrei a esquerda de novo, peguei a rampa pela direita e, torci às esquerdas outro tanto e, caí no portão do lar, todo gradeado.
Nunca fui Tropa de Elite.
Ao pedir para sair, sou interrompido por ele, com o seu chapeuzinho na cabeça, pronto para enfrentar um sol substituído pelo manto estrelado na escuridão do inatingível, os seus passos arrastados e sonoramente marcantes, decidido a me atacar:
– me leva eu com você! …
Não chorei. Abaixei a cabeça. Contei mentiras de distrações curtinhas, pra pecar menos, e sumi pela calçada vazia, à direita. A alma se derramou em regos de fios d’água, forçando as comportas do coração. Sobrevivi.
O aperto de mão entre as grades do lar a mim me consolou.
Théo Maia
para Inspirados







