Opiniões

Tecendo o próprio caminho

“Duas irmãs bordadeiras muito talentosas, as preferidas em todo o reino, resolveram se isolar numa torre alta e longe do feudo para poderem se dedicar à feitura de um manto para o concurso anual do manto mais belo para o rei. Ganhar esse prêmio seria a realização de um sonho cultivado por ambas que agora se sentiam capazes de enfrentar a forte concorrência com as mais experientes bordadeiras da região.
Enquanto uma era habilidosa e tinha agulhadas firmes e pontos perfeitos, a outra, apesar de muito talentosa, permanecia num eterno fazer e desfazer de bordados na tentativa de corrigir as falhas feitas na correria para superar a irmã.

Concentrada, a irmã habilidosa mal dizia uma palavra, trabalhava focada e feliz por perceber que sua obra criava corpo, e pássaros, flores, ninfas e arabescos pareciam dançar sobre a seda fina e delicada. A situação angustiante para a irmã menos habilidosa ficou insustentável quando ela percebeu que mais de meio manto de sua agora rival já estava brilhantemente bordado, enquanto o seu sequer saíra do barrado.

A visão turva pela inveja e os sentidos já não respondendo de forma normal trouxeram pensamentos que se multiplicavam e atormentavam quase que torturando-a. Outros pensamentos tão opacos quanto sua visão surgiram e talentos ocultos foram acionados. Aproveitando do olhar fixo da irmã para seu trabalho pode realizar gestos como quem risca no ar uma escrita mágica e pronunciando palavras de força maligna incalculável a transforma em uma pequena aranha. Aterrorizada e excitada pelo feito sentiu que finalmente conseguiria ter a tranquilidade e o tempo de terminar o manto iniciado pela irmã talentosa e poderia se concentrar sem ter que olhar para o lado e ver o sucesso alheio tão próximo.

Esqueceu então até de comer e de descansar. Ficou ali horas dentro daquela torre se esmerando ao máximo para conseguir terminar o manto que ficava mais lindo a cada ponto bordado. Os dedos cansados e escarificados eram envoltos em tecido fino para que o sangue não sujasse a belíssima seda que mal se via de tantas figuras coloridas e brilhantes.
Já se fazia tarde quando fez seu último arremate do último ponto, que seria a chave do reconhecimento e admiração de todo o reino. Exausta e com dores no corpo todo pela posição curvada que só piorava com o peso que o manto foi tomando com o passar das horas, levantou-se feliz e esticou os braços buscando algum relaxamento.

Abriu todo o manto para observar a beleza que criara e mal podia conter as lágrimas. Secou os olhos e na busca por um pouco de ar um enorme susto a tomou, pois não se via mais nem porta, nem janelas nem sequer paredes. Tudo era como um casulo e ela fora praticamente envolta em camadas intermináveis de fios finíssimos e resistentes. A sala, que era ampla e arejada, passou a ser um espaço ínfimo que tinha uma cadeira, uma cesta com os materiais do bordado e o manto deslumbrante caído ao solo. Tentou romper os fios na busca desvairada por qualquer ponto de fuga, mas suas mãos cansadas e feridas não conseguiam romper aquelas camadas e mais camadas dessa pupa que seria, então, muito em breve seu esquife. Entre gritos e choro se ajoelha e tenta entender o que poderia ter acontecido. Foi quando avistou lá no alto teto uma pequena aranha que a observava.”

Lembro-me de ter lido um conto com essa temática na minha infância. O que ficou na minha memória eu reproduzi com meu próprio roteiro, mas o tema é praticamente o mesmo. Essa história atemporal pode ser ambientada em qualquer lugar de nosso planeta e em qualquer tempo da história das civilizações. Infelizmente o bicho homem tem essa ‘glândula’ a mais em relação aos outros seres vivos – a glândula do egoísmo. Vejo como é importante saber apreciar e admirar o trabalho do outro sem que isso possa representar uma ameaça ou risco para o reconhecimento do seu próprio trabalho.

Com o advento das redes sociais e com o imediatismo que assola a todos nós, ninguém quer tecer o seu próprio manto e para muitos, observar o manto alheio é motivo de muito sofrimento e desajustes. Vemos isso nas mais diversas camadas da sociedade e hoje em dia aquele que sofre de invejite aguda sequer tem problemas em externá-la, e deixa livre toda e qualquer manifestação de boicote ou sabotagem.
Num mundo ideal deveríamos seguir o plano ‘olhar para o lado, ver o manto bonito que está sendo feito, voltar o olhar para o próprio manto e tentar melhorá-lo’. O que muitos fazem é fixar o olhar no outro e acabam esquecendo o que têm de bom na eterna busca de capturar o manto alheio.

Tecer o próprio caminho é saber que não importa o quão belo seu irmão é capaz de bordar, destruí-lo não fará de você melhor do que ele. É saber que o manto mais lindo e trabalhado não foi feito da noite para o dia e que você pode até ter todos os atributos para realizar um ótimo trabalho, sem o tempo devido você apenas irá reproduzir uma caricatura do que poderia ser sua obra prima.

2 Comentários

  1. Lindo, tanto a pensar e a perceber. Dividir o conhecimento não diminui o seu. Reconhecer a beleza ao seu redor te faz também mais belo.

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