Face a Face

Sombra e água fresca!
Luz da lua.
Nascer e por do sol junto ao mar, e em meio à natureza.
Madrugada de solidão, alimentada pela saudade do que, sem ter ido, já faz falta. Põem o coração para bombar, bater apanhando, fora do ritmo.
Seriam estes os momentos e estados d’alma para compor poesias que, musicadas, podem se transformar em louvores a Deus, o eterno manancial da inspiração, que faz correrem rios de água viva desde o nosso ser?
Diga aí, João[i], o amigo de Jesus!
“Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva”.
É do ventre que se vem à luz!
As maravilhas de peças musicais que podemos assistir em teatros, exposições, em um templo, nas estações de transportes coletivos, nas ruas, no fone de ouvido – com os olhos ativados em cada nota e tom – podem vir de tormentos e tormentas, de situações de vida e morte, de agonia extrema.
Queríamos nós ter podido ler o espírito do Santo de Nazaré, e anotar, palavra por palavra, que antecedeu ao seu grito de dor e de vitória sobre a morte[ii]: consummatum est!
Hino 118, da nossa Harpa Cristã, tipicamente das Assembleias de Deus em todo o globo.
É de sua história que TRÊS AGÁS, da ESTAÇÃO GOSPEL de Franca, cuida nesta edição.
Uma dona de casa, mãe de família e esposa dedicada aos seus, uma serva de Jesus Cristo, presbiteriana, norte-americana de Walden (pequenina cidade localizada no condado de Caledônia, no estado de Vermont) foi a eleita para receber primeiro os versos que deram nesse poema chamado, na origem, de ‘Face a face espero vê-lo”.
Fosse essa página poética sua única criação teria valido toda a sua presença entre nós, ainda hoje viva na memória melódica que construiu em nós outros e em vós também, acreditamos.
Carrie Elizabeth Ellis Breck, de 22 de janeiro de 1855, é dela que nos dispusemos a falar.
Mais desafinada, impossível! Não tinha a menor noção de altura, afinação, e, portanto, era um desastre se cismava cantar!
Ela, e nenhuma outra diva de palcos, microfones e estúdios, foi a escolhida pela graça celestial para, em ritmo lítero-evangelístico pra lá de perfeito, nos legar algo acima de dois mil poemas, que chamamos de bálsamo espiritual.

O cômodo preferido de sua casa para compor era outro, a sua cadeira de balanço, que está registrada nesta fotografia histórica, a qual podia movimentar para lá e para cá e muito mais para cima e para baixo, e, nessa métrica, aliviar-se de seus males de saúde e que lhe impunham pausas em suas tarefas do lar e obras intelectuais de valor inestimável aos que são amantes do Evangelho e da literatura de qualidade.
Quantas vezes rabiscou e concluiu suas poesias em cadernos, grávida e com alguma das suas cinco filhas ao seu colo, pés e ao seu redor!
Que mãe é essa que não agradaria a Deus e por ele seria escanteada, se cheia de seu poder fora concebida no casamento de Stephen Thompson Ellis e de Elizabeth Naomi Boynton Coburn?
Glórias a Deus!
Sua obediência e fidelidade nas atividades de sua igreja, ora onde foi criada e, depois, em Oregan, em que esteve e partiu para o descanso em Cristo, nos últimos anos de sua peregrinação terrena, nunca foi à razão de trocas, favores e espera de recompensas materiais. Desconhecia o descanso, a não ser quando o corpo enfermo a parava. Regalias e mordomias nem pensar, mesmo porque mordoma era na seara do Reino dos Céus!
Feliz de Frank Breck e sua meninada, sua esposa e mãe incomparável.

Modesta e comedida até para comer, Carrie Elizabeth cultivava a gula pelas coisas do alto.
Claro que, desse fato comum aos comuns e insensíveis de alma, com um novo hino de louvor e de adoração ela nos agraciaria.
Na pauta, Face a Face:
Na presença estar de Cristo,
Em Sua glória, que será;
Lá no céu, em pleno gozo,
Minha alma O verá.
Face a face, espero vê-Lo,
No além do céu de luz.
Face a face em plena glória,
Hei de ver o meu Jesus.
Oh! que glória será vê-Lo.
Que O possa eu mirar!
Eis, em breve, vem o dia,
Que Sua glória há de mostrar.
Quanto gozo há em Cristo,
Quando não houver mais dor,
Quando cessar o perigo,
E gozarmos pleno amor.
Face a face, quão glorioso
Há de ser o existir,
Vendo o rosto de quem veio,
Nossas almas redimir.
Hino mesmo esses escritos exultantes se tornaram somente em 1899, pelo talento e unção do compositor e músico, também evangélico, Grant Colfax Tullar que, criado por mãos de parentes, começou a vida cedo. Órfão, foi fazer algum dinheiro em uma fábrica de lã e, na adolescência, pôs-se a vender calçados.
Rapazote, de poucos anos de escola, ingressou no ministério da Palavra. Seu pastorado durou enquanto sua vocação pelo labor missionário e musical não falaram mais alto. Escrever era com ele mesmo; por melodias em trabalhos alheios e dele, igualmente.
Que cavalheiro alinhado!

Como o Senhor tem o seu jeito e modos de fazer cumprir sua vontade, aproximar Grant Tullar de Carrie foi saboroso além da conta.
É que o jovem ministro do Evangelho havia improvisado uma comovente melodia no dia anterior a que, pela manhã, chegara-lhe uma correspondência em cujo envelope estavam uma carta e alguns escritos poéticos dela, a compositora de prole farta.
Bastou sentar-se ao piano para, mudamente, dialogando com as suas teclas, improvisar uma melodia para o que lhe saía do altar do peito, em sinal agradável de tudo o que o Salvador sofreu e o quanto Ele por si e por todos nós sangrou e morreu em redentora morte de cruz.
Uma pontinha de chateação talvez houvesse na sobra de uma geleia – sua guloseima predileta -, que uma das anfitriãs, de suas visitas a enfermos, lhe dera. O que tinha na vasilha era pouco ou muito? Com elegância, bradou, quase com raiva: “Então, isso é tudo para mim?”
Vai entender poetas e loucos!
Sabe a correspondência que citamos a quatro parágrafos atrás? Pois, é. Dentre os poemas que Carrie Elizabeth perguntava se poderia o destinatário musicar, o primeiro que Tullar leu, logo viu que a melodia que fizeram naquele teclado, na noite anterior, era o par perfeito. Um hino estava completamente concebido, pronto para nascer sob o nome Face a Face, em bom e velho português.
No play, com o irmão de fé Carlos José:
Nesse link, entremos em enlevo de alma, na versão inglesa:
O gozo que há no amor de Cristo por você, e por todos os que nele confiam, nos livra de toda a dor.
A paz do Senhor!
Théo Maia
[i] Jo 7:38
[ii] Tudo está consumado.







