
A marca Samello é, provavelmente, a mais representativa e valiosa de todos os tempos em que a indústria calçadista foi o motor de arranque do desenvolvimento da cidade de Franca. Acrônimo obtido a partir do nome de Miguel Sábio de Mello, o poderio empresarial do grupo iniciado pelo seu patriarca nos distantes anos 1930 na velha Franca do Imperador se tornou sinônimo e símbolo da qualidade do calçado masculino francano, orgulho de uma cidade que ainda se apresenta como a “Capital do Calçado”. Wilson de Mello, filho primogênito de Miguel foi a face mais conhecida da família nos negócios, mas eram vários os irmãos dele que tocavam as empresas.


Sim, os tempos são outros, há muitas mudanças em curso na economia e a Samello está começando a desaparecer no imaginário local após a crise econômico-financeira de uma empresa familiar que começou a se desagregar. A expansão dos negócios da empresa calçadista que nos anos 70 chegou à agropecuária, informática (a MISAME dos computadores), curtume (Progresso), investimentos imobiliários em loteamentos (Samel Park e outros), também chegou ao ramo da borracha através da MSM.
Praticamente a última atividade industrial direta da família, a MSM surgiu em meados dos anos 1960 como mais um braço de uma espécie de “cluster” calçadista criado pela Samello e chegou a ter uma unidade de injetados no centro da cidade à Rua Ouvidor Freire. Criada na década de 60, a empresa foi instalada no alto do bairro da Estação em prédio construído nos anos 1930 pela Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro – SANBRA, que havia instalado no local uma fábrica de beneficiamento de algodão e produção de sacarias para café e grãos.

O prédio é um magnífico exemplar da arquitetura industrial com sotaque britânico, único na cidade: tijolos vermelhos aparentes, lanternins suportados por estruturas de madeira para ventilação natural com um design sofisticado, fachada movimentada com recuos e marquises em balanço de concreto armado, grandes vãos livres para a atividade industrial, estrutura de suporte de uma caixa d´água em ferro apenas com rebites, sem soldas. Essa caixa d´água metálica com a logomarca da MSM e a chaminé de tijolos são, desde meados do século XX, uma referência visual na paisagem do bairro da Estação. Instalado à avenida Rio Branco, o prédio fazia fundos para a estrada de ferro Mogiana, nos períodos iniciais chegou a ter um pequeno ramal que permitia aos vagões encostarem no edifício, facilitando o desembarque/embarque de matéria-prima e produtos acabados. Perdeu-se na história o que não teria dado certo, a fábrica foi desativada e adquirida pelo grupo Samello, que ali instalou a fábrica de borracha MSM.


Recentemente, com dívidas a saldar, o edifício foi arrestado a leilão e adquirido por proprietários de outro poderoso grupo econômico local, do Magazine Luiza. Com isso, a MSM foi obrigada a entregar o edifício aos novos donos e está sendo transferida para outro prédio icônico para a história da cidade, a fábrica de calçados da Samello na antiga “Rua do Bonde”, que está paralisada há algum tempo após frustrada tentativa de criação de um mercado no local.
O prédio da Samello, construído em 1955, é projeto do engenheiro Maurício Costa França e seu sócio, o arquiteto boliviano Carlos Lack, vencedores de um concurso interno. Inspirado nas fábricas que Wilson viu em seus estudos nos Estados Unidos, o prédio é um belo e típico exemplar do modernismo brasileiro e da linha de produção industrial de caráter fordista. Grandes vãos, excelente iluminação e ventilação através de sheds, brises nas janelas que controlam a insolação e ventilação natural, edificação racionalizada para o processo produtivo das primeiras esteiras e maquinário moderno da United Shoes instalados na fábrica. Chão de fábrica que acolheu ganhos de produtividade, a inovação tecnológica, a produção de riqueza, de produtos de qualidade, assim como testemunhou a luta de classes, permanente, entre capital e trabalho.

Não se sabe ainda o que será feito com os dois edifícios icônicos de um tempo, o tempo da cidade industrial, que aparentemente está caminhando para o fim. Numa cidade sem memória, não há o que esperar dos órgãos públicos e seus representantes. De onde menos se espera, nada virá mesmo, como do CONDEPHAT municipal, capturado por uma visão imobilista e presidência atrelada ao Executivo. Qual prefeito ou Câmara desta cidade insensível ao passado teria interesse ou se atreveria a discutir a preservação da história com o maior grupo empresarial da cidade? O Ministério Público é lento, burocrático, desatento e raramente atende ao tempo da preservação.
Portanto, não há como falar em tombamento ou algo do gênero, já se sabe impossível, com resultado oposto. Seriam demolidos de imediato, mesmo com prejuízo para todos, como aconteceu com a estúpida decisão dos antigos proprietários (do ramo calçadista, diga-se de passagem) em demolir no centro de Franca um pedaço da primeira fábrica mecanizada de calçados, a Jaguar. Penso que o caminho é outro, já que a reformulação de espaços existentes é um dos caminhos para a sustentabilidade urbana por conta de redução de custos e redução de resíduos e energia. Reformular não significa apagar as camadas do tempo, mas, sim, estabelecer um diálogo entre o existente e o contemporâneo.
Passa por um caminho educativo, ao mostrar aos novos proprietários desses edifícios a história que está escrita em suas paredes de pedra e cal, que tem a ver com o que são hoje, com seu próprio passado. Ao pensar em novos usos para esses espaços dessas duas fábricas, que respeitem o tempo e a arquitetura das gerações que nos antecederam, inclusive dos trabalhadores, que preservem no projeto de sua nova ocupação as características essenciais de sua arquitetura e as marcas do tempo. Mas, quem poderia fazer isso? Além de profissionais sensíveis à preservação histórica, os próprios parentes, colaboradores e trabalhadores desses novos empresários, que poderiam mostrar-lhes as dificuldades que enfrentaram para chegar onde chegaram, a história vivida, que seu passado não deve ser simplesmente apagado ou descartado.
Ou, simplesmente, para que não fique gravado neles que a história não é senão uma fábula contada pelos vencedores.








Parabéns pelo resgate e quem sabe fazer um da história dos trabalhadores da Indústria ao longo do tempo.
Excelente colocação, vinculada à memória francana industrial que se vai como a estação…
Eu estou ti vendo…. Kkkkkk
Bela reflexão, com uma triste conclusão!
Parabéns Mauro em sua luta pela preservação da memória arquitetônica, social, tecnológica e urbanística . Seu trabalho será uma referência para as novas gerações e quem sabe para algum prefeito que sensibilize pela história da cidade.
Muito interessante. Quando fui à China conheci um brasileiro que estava morando lá e trabalhava numa fábrica de calçados. Ele e sua família trabalhavam numa fábrica de calçados de Franco e como essas fábricas foram fechando, ele resolveu trabalhar no mesmo ofício na China. Parabéns!
Mais uma pesquisa histórica sobre a nossa cidade que só você, Mauro, tem autoridade e conhecimento para pesquisar…. obrigado, Mauro…
Parabéns ao Mauro pelo brilhante resgate da História e da Memória da cidade de Franca. É uma pena que a nossa cidade não tenha uma política pública de cultura e de conservação do seu patrimônio histórico e cultural.
Franca como cidade não existiria sem a indústria de calçados. Seria um grande pasto. Hoje essa atividade perdeu a função inicial, de tornar lavrador em operário. Agora, ao contrário de antes, é um retrocesso para o cidadão que busca melhor qualidade de vida com trabalho.
A decadência do setor evidencia-se em ter o zé da guardinha como representante.
Franca será no futuro uma cidade que não preservou seu passado. As construções do passado viram amontoados de escombros ou estacionamento. Temo que o prédio da MSM, não tenha o mesmo fim do Hotel Francano e outros imóveis históricos que foram demolidos.
O tempo está passando e estamos assistindo um novo período. As lideranças já não existem mais e as reivindicações estão ficando na papel. Um prefeito que trabalhou em silêncio foi o Mauricio. Este juntamente com alguns poucos amigos mostrou que gosta de Franca. Hoje a favela está instalada um pouco em função das dificuldades naturais e por iniciativas descontroladas que trazem moradores das cidades vizinhas pra pedir no semáforo e depois comer no bom prato. Bom prato, que sem dúvida ajuda a cidade, mas o nosso prêmio favela esparramada pela cidade toda.
Sr. Miguel para os que não sabem era filho de imigrantes espanhóis, nasceu em Santa Maria, município de Sacramento MG.
Trabalhou junto com o meu avô Ramón ANTOLIN Hernandes (espanhol nascido na cidade de Nijar província de Almeida)nas lavouras de cafés na fazenda “Belo Horizonte de propriedade da família Spinelli.
Sr. Miguel casou_se com D. Idúlia da cidade de Cristais Paulista, mudou_se para Franca e montou uma sapataria onde além de consertar calçados, começou então a fabricar calçados feminino com a marca “Calçados Edite” em homenagem à sua única filha mulher.
Meu avô Ramón montou a Calçados ANTOLIN que devido a crise da segunda guerra teve que fechar as portas.
Lembro _me que o contador de ambas era o Sr. Hugo Bettarello do Calcados AGABÊ.
Ricardo Augusto Esteves de Andrade Pinho ou simplesmente Ricardo Augusto, artista plástico
Muito bem escrito como tudo que Mauro Ferreira posta além do.conteudo admirávelmente detalhado ..fica um depoimento histórico rico em verdades que certamente chocam interesses puramente materialistas (Poder) que nem estão aí para a preservação da memória ou História de nada senão o que o $:pode comprar ou continuar mandando !???? kkkk nesse nosso mundão hilário…né mesmo?
Uma cidade que tinha tudo para ser uma potência.foi destruída por maus administradores e herdeiros sem noção..hoje oque se comenta de franca lá fora…CIDADE SEM MEMORIA..DESTRIDA .POVO FALIDO E TOMADA POR BANDIDOS E MORADORES DE RUA…
Excelente artigo! Moro em Fanca há mais 15 anos e não conhecia a maior parte dessa história. Entendo as dificuldades aventadas pelo autor porque recentemente estive no Colégio Champagnat, maravilhoso também, e descobri que a estrutura do prédio que faz frente para a avenida está com risco de cair, e não há projeto de recuperação em andamento. E eu pergunto, estarrecida, “como não?”
Os pais criam empresas, e a maioria quando é passada para os filhos se perdem em dividas e más administração.
E com perdão da sinceridade, melhor não ficarmos presos ao passado, isso nos deprime
Por não poder vivenciar o que se foi nos dias de hoje.
Meus parabéns pela matéria.
Gratificado e sensibilizado ao ler este artigo de tamanha ilustração, como soi acontecer com os trabalhos do profesdor Mauro Ferreira. Falou tudo e mais um pouco, de forma refinada e com conhecimento de causa que lhe é imanente. Sou de Passos MG, mas com um carinho imenso e agradecido à querida Franca, onde morei, estudei, formei e trabalhei por 20 anos. Agora é esperar que esse apelo, digamos universal, chegue às autoridades e as sensibilizem. Parabéns, professor Mauro, por mais esse.
Cairão lágrimas dos meus olhos agora,após ler esse resumo sobre a SAMELLO. trabalhei lá por uns anos ,
Também trabalhei quase 6 anos no calçados MARTINIANO, 4 ANOS NO TERRA
POXA!
ACABARÃO TUDO.
( DESDE QUE OS FILHOS DOS DONOS COMEÇARAM A TOMAR CONTA,DEVIDO A IDADE DOS NOSSOS PRIMEIROS PATRÕES.)
É SÓ OS FILHOS TOMAREM CONTA,
ACABA COM TUDO..!
ME DESCULPA.. É A REAL!
É caro Mauro. O negócio tá osso. Franca é uma cidade que envelheceu. Nossas ideias ainda estão quando o munícipio tinha poucos habitantes. Aqui basta uma ida nos bairros para ver tudo que não gostaríamos. Casas construídas a beira de um córrego no jardim palmeiras. Prédios sendo construídos próximo a um outro córrego. Bairros sendo autorizados a toque de caixa não levando em conta impactos. Lixo descartado de forma irregular. O Sus local recheado de reclamações. Um orçamento modesto e todo engessado, quando não comprometido com o custeio (natural a qualquer município) é usado para pagar indenizações pela omissão do poder público. Nem finaciamento conseguimos. Franca cresceu em tamanho e só. Nossas ideias permanecem minúsculas tal como o dinheiro no cofre da prefeitura.