Por Mauro Ferreira
O atual prefeito da velha Franca do Imperador, já em campanha para sua aparentemente tranquila reeleição, pois não há oposição forte e está bem avaliado segundo pesquisas publicadas na imprensa, lançou intensa campanha publicitária para divulgar o “Programa Parques de Franca”, onde tece elogios aos parques públicos da cidade. Na propaganda de lançamento, a Prefeitura anunciou que lazer, espaços amplos para práticas esportivas, contemplação da natureza e atividades culturais com segurança são os elementos que fazem parte do Programa, listando todas as ações realizadas nos Parques dos Trabalhadores, Caxambu, Poliesportivo, Jardim Zoobotânico e Fernando Costa. Num governo onde não há grande preocupação com as metas das ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU para 2030, a notícia parece positiva.
O fato: Franca não é e nunca foi uma cidade preocupada com parques públicos de qualidade e acessíveis. Como mostrou a pandemia, a existência de parques públicos de qualidade é essencial à qualidade de vida da população, como lugares para práticas saudáveis e que permitem encontros e socialização. Enquanto vimos em muitas cidades surgirem parques de extraordinária qualidade paisagística como o Sabiá em Uberlândia, o Ecológico de Indaiatuba, o Curupira e Raia em Ribeirão Preto, Franca ficou para trás, mea-culpa até do próprio governo que participei no final do século XX. Ao contrário, o rastro de destruição de espaços verdes em sacrifício ao “Deus Automóvel” como ocorreu com o Vale dos Bagres é um traço da nossa história recente. Dos parques previstos por Aziz Ab´Saber no Plano Diretor de 1972, poucos saíram do papel e os que foram implantados o foram com baixa qualidade urbanística e ambiental. Mesmo assim, houve avanços – locais antes ocupados por voçorocas ou ravinamentos foram saneados e alguns receberam arborização e equipamentos esportivos.


O Parque dos Trabalhadores, projeto da arquiteta Cecília Fuentes vencedor de um concurso público em 1996 somente foi executado quase dez anos após o concurso para ser em seguida abandonado pelo governo de Sidnei Rocha por picuinha política contra seu antecessor. O processo de sua destruição ao longo dos anos é apenas um sintoma do desrespeito ao dinheiro público ali utilizado. Agora, segundo o prefeito, foi recuperado e a gestão entregue à iniciativa privada. Se o modelo for bem sucedido, outros serão cedidos. Torço para que dê certo, pois do jeito que está, não dá.
Dos cinco parques incluídos no Programa, conhecia o até então abandonado Parque dos Trabalhadores, o Fernando Costa – na verdade, um parque de exposição de animais existente desde os anos 1940, com ruas internas asfaltadas e galpões para animais, o Parque Poliesportivo – local inicialmente destinado à feira de calçados Francal (1972), hoje com suas construções totalmente deterioradas e os equipamentos esportivos inicialmente erigidos a partir de 1975 para os Jogos Abertos, como o ginásio Pedrocão, a pista de atletismo e quadras desportivas. Sua localização em região de alta densidade e renda, a possibilidade de fazer caminhadas e praticar diversas modalidades no local o levaram a ser um dos mais frequentados pela população, embora sua precariedade urbanística seja contraditória com o intenso uso. As pessoas caminham em pistas asfaltadas feitas para estacionamento de veículos do Ginásio Pedrocão, há cada vez menos áreas livres (cada prefeito aumenta o espaço pavimentado do local) e a vegetação resume-se a árvores que vão diminuindo também, quando morrem não são repostas. A expectativa francana em relação à qualidade desses espaços públicos é tão baixa que o Poli é considerado bom pelos usuários, pois dá para caminhar em segurança, coisa impossível de fazer pelas calçadas da cidade.


No entanto, tudo ali é improviso, de baixa qualidade paisagística e malcuidado. As quadras cobertas com piso cimentado parecem um carroção de filmes de cowboy, arquitetura do improviso. A pista de atletismo é a mesma há cinquenta anos. Dos dois ginásios maiores, o Pedrocão que aparece na TV nos jogos de basquete, não oferece nenhum conforto aos quatro mil fãs do time do “Clube dos Bagres” que o lotam nos grandes jogos, a beleza da torcida na TV não tira o desconforto de quem senta na arquibancada cimentada levando chutes na bunda ou quando passa o vendedor de amendoim, nem os sanitários. As placas de ventilação quebradas da fachada mostram que falta de manutenção é a tônica, os improvisados vestiários, o túnel estreito e baixo mal projetado, as perigosas escadarias nas saídas oeste nunca utilizadas por serem perigosas mesmo são defeitos que nunca foram sanados, apesar das várias reformas já realizadas. Problemas que se pode observar também no ginásio Amaury Destro, ao lado do Pedrocão. Quando chove, as atividades são suspensas.


Já o Parque Zoobotânico, tombado pelo município, é utilizado para produção de mudas e educação ambiental, sempre busquei mudas para plantar naquele local, a sibipiruna defronte minha casa é uma delas. Em estado de abandono, com baixa produção de mudas atualmente, segundo o Programa recebeu pistas para caminhadas pavimentadas em concreto. Isso ocorreu na bacia do Rio Canoas que deveria ser preservada de mais impermeabilização, além de novos prédios. Como disse antes, todos os prefeitos reduzem as áreas permeáveis dos parques com pavimentação impermeável e edificações, é uma espécie de maldição. Segundo a propaganda da Prefeitura, o objetivo é aumentar a visitação de pessoas ao local. Como se trata de área distante da malha urbana consolidada, o consumo de combustível fóssil para visitá-lo pode gerar mais perdas que ganhos.
Deixei para o final o Parque Caxambu, o único que não conhecia. Fui visitar e descobri que já tinha ido ao local antes, quando era o Centro Comunitário da Vila Santos Dumont, que devolveu a área para a prefeitura. Na verdade, não é um parque, a propaganda é enganosa. É apenas um centro esportivo como muitos outros na cidade e pior, em más condições de manutenção. Nem a publicidade e recente demão de tinta podem esconder a precariedade do local. Infelizmente, as imagens falam mais que as palavras. Num domingo ensolarado pela manhã, não havia viva alma no lugar. Vazio, nenhuma atividade. Nenhuma árvore nova foi plantada. Sem investimento em arquitetura, paisagismo, um plano de ação discutido com a comunidade vizinha e constante manutenção, breve teremos novas ruínas modernas no que um dia poderia ser um verdadeiro Parque Caxambu.


Mauro Ferreira é arquiteto e urbanista









