Opiniões

Os Índios no Brasil

A primeira impressão que os portugueses tiveram dos nativos do Brasil, ainda nos primeiros dez dias da sua chegada, em carta de Pero Vaz de Caminha enviada ao rei de Portugal, é de um povo solícito, pacífico, chegando mesmo a ser considerado inocente. Na sua primeira carta, Caminha se esforça para demonstrar para o rei essa índole dócil e pacífica dos nativos que, em tão poucos dias já estavam tão mansos e seguros entre eles que pareciam mais amigos dos portugueses que estes deles, como anotou o historiador Rocha Pombo.

O antropólogo Darcy Ribeiro, ensina que em 1500 eram mais de um milhão os indígenas encontrados pelos portugueses no litoral do Brasil. Provavelmente em maior número que a população de Portugal à época. Eram nações de tronco tupi e na escala evolucional se encontravam no final da condição paleolítica, ou seja, começavam a praticar com algum controle a agricultura. E cultivavam mandioca, batata doce, milho, amendoim e outros alimentos. Encontravam-se, portanto, na fase evolutiva passada pelos povos europeus há 10 mil anos.

Enfim, os portugueses não encontraram guerreiros ferozes como em muitas passagens da história se tenta mostrar, mas um povo com dez mil anos de distância evolutiva dos europeus, mas de índole pacífica, curiosa e até ingênua. Os povos que aqui chegaram, sim, viviam um tempo de grandes aventuras, o tempo das conquistas e não tinham noção de limites dos recursos do planeta, nem grandes escrúpulos com relação a outros povos e outras culturas.

O dia do índio só foi instituído no Brasil quatro séculos e meio depois dos primeiros contatos dos europeus com os nativos, através do Decreto-lei 5540, de 02 de junho de 1943, pelo então presidente Getúlio Vargas, já com a maioria dos povos originários extintos. Mas essa homenagem nada significou de melhoria para os povos do Brasil, infelizmente. “A data pode ser considerada como um motivo de reflexão sobre os valores culturais dos povos indígenas e a importância da preservação e respeito a esses valores”. O verbete acima pode ser lido em um importante dicionário eletrônico da web, a pretexto de esclarecer os motivos da homenagem oficial aos índios.

É interessante observar a espontaneidade com que o dicionarista interpreta o que a sociedade pensa sobre os povos indígenas: devemos preservar os seus valores culturais. Não os povos indígenas, com seus valores culturais, com seu modo de vida, seus espaços… Alguém poderia objetar que quando se fala em preservar os valores culturais dos povos indígenas está implícito, obviamente, a preservação dos povos e seus valores. Mas a história da colonização desmente esta última hipótese. A ideia se afina melhor com a preservação apenas dos valores culturais e supõe a extinção dos povos indígenas, seja pela integração à sociedade colonizadora, seja pela eliminação, aliás como vem ocorrendo até hoje no Brasil. Se refletirmos um pouco perceberemos que a nossa sociedade ainda carrega traços dos colonizadores, que sempre se consideraram donos de tudo o que encontraram: do destino dos “povos inferiores”, das riquezas da terra, das demais espécies, dos ambientes.

Portanto, a nota do dicionário não está errada. É assim que a sociedade e os governos sempre trataram os índios do Brasil. De um modo geral, porque há exceções, como se verá mais adiante na continuação desta crônica. Mas ainda nos dias atuais estamos dizimando os povos ancestrais do território brasileiro, por ações de criminosos consentidas pelo governo.

Dr. José Borges

Advogado (Formado em Direito pela Faculdade de Direito de Franca); especialista em Direito Civil e Direito Processual Civil e em Direito Ambiental. Foi Procurador do Estado de São Paulo de 1989 a 2016 e Secretário de Negócios Jurídicos do Município de Franca. É membro da Academia Francana de Letras.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo