Desenvolvimento brasileiro e a cultura do genocídio
A história do povo brasileiro é marcada por processos de dizimação de povos originários. Ao atracar sua Nau na costa brasileira, Pedro Alvares Cabral, sabia exatamente o que buscava: metais preciosos, ou produtos que poderiam ser revendidos na Europa. Como à primeira vista, nossos povos originários não estavam adornados com ouro, imaginou-se que, em um primeiro momento, não haveria tais metais.
Entretanto, a costa terra recém encontrada, estava repleta de uma árvore, cuja seiva de cor avermelhada era largamente usada para tingir tecidos no velho continente, era o pau-brasil, árvore que deu origem ao nome do nosso país e do nosso povo. Há uma grande curiosidade no fato de sermos chamados de brasileiros. Na Língua Portuguesa o sufixo eiro, indica profissão e não nacionalidade. Isso explica que a elite portuguesa e brasileira não se referia ao Brasil e a quem aqui morava, como pais e seu povo, mas referia-se à empresa e seus trabalhadores.
As plantações de cana-de-açúcar e as bandeiras foram os primeiros empreendimentos da Coroa Portuguesa em nosso território. Quando esses negócios eram particulares, como é o caso dos bandeirantes, estes eram incentivados pelo Estado Português, pois, os bandeirantes alimentavam a expansão territorial, o mercado de metais preciosos, a expulsão, o aprisionamento e o extermínio de comunidades indígenas.
Os bandeirantes, hoje em sua maioria são tratados como heróis, mas, foram sem dúvida os primeiros genocidas brasileiros em nome do progresso.
Nesse sentido, o Período Imperial, Republicano, do Estado Novo, do breve Período Democrático, da Ditadura Militar e agora da Democracia, se serviram de genocídios para tentar viabilizar seus respectivos projetos de “progresso” e de suas respectivas elites.
Desta forma, como não lembrar o exemplo dos quilombos, um a um dizimados, que muitas vezes eram cercados para a sua população morrer de fome. Como não lembrar de Canudos, que resistiu, mas que todos foram assassinados mesmo depois de rendidos. Como esquecer jovens desaparecidos em massa durante ditaduras porque lutavam por liberdade. Os exemplos são fartos de violência desproporcional daqueles que detêm o poder econômico contra grupos ou minorias.
Muitos setores da sociedade acreditavam que, com a Constituição de 1988 e a reorganização dos grupos políticos e econômicos, essas violências diminuiriam, ou até mesmo cessariam com o passar dos anos. Mas, em 2022, escutamos o então Presidente Bolsonaro, dizendo com todas as letras que minorias deveriam se curvar, sem contar as diversas vezes que produziu discurso do ódio, contra negros, índios, LGBTQIAPN+, mulheres…
Quando os portugueses chegaram, a estimativa era de que haviam entre 3 a 5 milhões de povos originários e em torno de 2000 mil etnias diferentes, dividas em diversos troncos linguísticos. Hoje, segundo dados da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) esse número não chega á 1 milhão e as etnias são 305.
O que vimos chocados e estarrecidos na última semana, Yanomamis sendo isolados, por garimpeiros em busca de metais preciosos, ficando sem o que comer e sem assistência médica para doenças que o homem branco levou. Esse processo faz parte da lógica do modelo de desenvolvimento que a atual elite econômica-política pensa para o país, desde 1500.
Responsabilizar jurídica e politicamente os protagonistas deste crime contra a humanidade dos quais os Yanomamis foram vítimas, será fundamental para a saúde de nossa democracia. A elite brasileira nunca tratou a classe trabalhadora, os povos originários, e os diversos grupos que produzem a riqueza como povo, somos meros serviçais de um projeto de progresso que explora ao extremo para concentrar a riqueza ao máximo.
Mas, precisamos olhar profundamente a história e entender que, a elite brasileira tem em sua gênese um modelo de progresso e desenvolvimento que produz fome, miséria, divisão e a morte daqueles que resistem, seja politicamente, culturalmente, ou seja, como no caso dos Yanomamis, apenas existir.
Carlos Machado é Historiador e Militante do PCB







